1.9.09

Amanhecer IV

Matenigxo IV


- O que você tá olhando? – Dr. Kaji Matsumoto visivelmente desconfortável no balançar constante do veículo de seis rodas e engenharia planejada para pesquisas e explorações científicas.


- Não abriu a boca o percurso todo. Justo o membro mais tagarela da tripulação. – responde Tibério, com ironia, abraçado a um fuzil, seu capacete dançando ao lado acompanhando o balançar do veículo. – Algum problema? Saudades das cafeteiras mamíferas?


- Sabe que não. – Kaji respira fundo, tenta se ajeitar melhor no assento. – é porque não gosto desse oxigênio reciclado artificialmente, não podemos usar nossas reservas?


- Claro que sim! Afinal, pra que precisaríamos de oxigênio no caminho de volta? – modificou o tom de voz em deboche, voltou à seriedade. – Nossas reservas estão acabando, sabe disso. Precisamos economizar o máximo possível, e como nossos sensores estão quebrados, não temos certeza da segurança dessa atmosfera. Mesmo com essas coisas sendo humanas.


Ao redor dos dois, outros três homens armados perdidos em seus próprios mundos e divagações. Uma luz vermelha ao lado de Tibério pisca, ele soca o botão abaixo. “Capitão, acho que vai querer ver isso!” Foi o que de lá saiu.


Tibério coloca seu capacete, chuta o computador de mão na direção de Kaji e ambos saem do veículo.


- É, parece que chegamos. – comenta o Capitão Gallore ao dar de frente com uma imensa nave colonial.


***


Duas horas depois, a equipe de exploração termina e repassam as informações para o Dr. Matsumoto que logo se reporta ao Capitão.


- É uma Fragata Colonial Classe B. Tem centenas de anos, provavelmente do primeiro êxodo colonialista.


Como se não desse ouvidos, Tibério vai em direção a nave, limpa a sujeira de uma parte da fuselagem, aparece nela escrito “Amanhecer IV”. A equipe inteira fica em silêncio por segundos que pareceram horas.


- Já verificaram o interior da nave? – Tibério quebra o silêncio.


- Ainda não senhor, o cortador de metais está sendo preparado para isso. – um dos oficiais-cientistas ao fundo se levantando após coletar amostras.


Kaji olha para os lados com desconfiança, procurando algo, então se abaixa e verifica o solo.


- O que foi? – era Tibério.


- Não percebeu? – Matsumoto mostra a região ao redor. – Essa nave prova que eles são humanos, mas não há nenhum por aqui. Não é normal um humano se afastar do abrigo, ainda mais um tão seguro.


- Tem certeza de que olhou para eles? Podem ser muita coisa, mas não são normais. Tornaram-se quase bestas, não devem se comportar como humanos. – levanta o fuzil, verifica o pente, engatilha e trava. – Afinal, já tem alguma teoria de como os colonos chegaram a isso?


- Não temos nossos sensores de atmosfera, mas pelo que conseguimos das amostras de solo e das condições da própria fragata posso afirmar que houveram agressões nucleares contra eles. – ao fundo, o cortador de metais é ativado e inicia seu trabalho. – Não duvido nada que piratas tenham atacado nossas naves coloniais em tempos antigos.


- Quer dizer que a radiação os deixou assim? – Tibério levanta a mão direita e faz alguns gestos ordenando que os fuzileiros se posicionem próximos da passagem sendo aberta. – E você querendo arriscar respirar na atmosfera desse lugar...


- Não posso garantir que a radiação é a responsável, nunca vimos que tipo de mutação ela pode causar em ambientes não controlados. Pode tanto ter sido só isso como também a soma dela as exigências impostas pelo planeta ou mesmo ela não ter nada a ver com isso e estarmos diante do caso de evolução adaptativa de uma espécie mais rápida já presenciada.


- Por favor, por favor. – apóia o fuzil no chão e abaixa a cabeça em decepção. – Seja o cientista que todos sabemos que é e responda qual a opção mais provável? A, B ou C?


- B... – Dr. Matsumoto responde visivelmente a contragosto.


- Ok, temos aberrações genéticas vindas de radiação. Sorte termos aprendido a não brincar mais com isso. – cai um pedaço de metal da nave, ao ouvir o som, Tibério empunha o fuzil e antes de ir fala com Kaji. – Só quero mais um favor, verifique nos arquivos históricos da frota, quero saber quantas outras naves coloniais não responderam e nem nunca foram localizadas.


Tibério entrou na nave liderando os fuzileiros, vasculhando tudo ali dentro em uma mistura de melancolia com apreensão. Ossos humanos roídos em alguns aposentos, tudo apagado, ruídos esganiçados da fragata corroendo, se rendendo ao tempo. A equipe faz a varredura completa em quarenta minutos, com apenas um ter algo para reportar. Uma espécie de túnel abaixo do painel principal na ponte de comando. Pouco depois, toda a equipe de exploração está lá dentro, analisando esse túnel e tentando recuperar os dados de navegação da nave. Tibério se aproxima de um dos cientistas, sem tirar os olhos do túnel e pergunta:


- Vai demorar muito?


- Não senhor! Em três minutos teremos todos os dados transferidos. – respondeu o homem, concentrado em sua função, por menos necessário que seja se concentrar em transferir arquivos.


Tibério se distrai com um chamado em seu comunicador pessoal, parecia uma mensagem de socorro emergencial. Era gravada. Vinha de Imperatriz e dizia algo como “SOS... SOS... Estamos sob ataque... As cois... emboscaram! Aaahhhhhh!”


- Droga, já sei por que não vimos nenhum deles o caminho todo! – Tibério corre na direção do túnel. – Porque eles vivem no subterrâneo!


- De fato, faz sentido dada a palidez da pele deles. – observa Kaji, a despeito da euforia escondida pelo capacete do Capitão.


- Não é isso! Eles emboscaram Imperatriz! Nossa nave está sob ataque! – puxa Dr. Matsumoto pelo colarinho.


– Todos em posição! Recolham os equipamentos! Retorno de emergência e resgate para Imperatriz. Temos dois minutos!


***


A equipe de exploração retorna no menor tempo que pode, mas não é o suficiente. Ao entrarem na nave, tudo o que vêem é sangue, tudo o que cheiram é morte. Corpos de seus amigos, companheiros, amantes, irmãos em pedaços, os que estão inteiros não são reconhecíveis. Tibério segura as lágrimas e o soluço durante os comandos, vai até a ponte e estuda o painel de controle temerário pela luta tê-lo avariado.


- Sargento-Cientista Kernel! – grita, sendo prontamente atendido por um homem baixo, loiro e usando óculos imensos. Extremamente desajeitado, ele tropeça em duas cadeiras antes de se aproximar do Capitão e bater continência. – Parabéns, é agora por falta de opções melhores um oficial-militar e foi promovido para Tenente. Procure não me decepcionar e verifique o estado do motor de nossa menina.


- O-obrigado Capitão! Sim Capitão! – e lá foi ele, tropeçando nas mesmas duas cadeiras.


- O que foi isso? – perguntou Kaji ao presenciar toda a cena.


- Estou recuperando a ordem na tripulação. – tentava não encarar o amigo, passou por ele e se sentou em sua cadeira habitual. – Podem não ser militares, mas tem treinamento, até sairmos daqui e renovarmos os tripulantes precisamos de tudo possível para nos manter em ordem e vivos nesse maldito planetóide fim de mundo. Imagino que saiba que os acontecimentos te tornam meu Imediato.


- Vai mesmo ignorar todas essas mortes como sempre faz? Fugir da realidade? Seus subordinados morreram! Lide com isso!


- Eu estou lidando! Mantendo os que sobreviveram sob ordem para que não acabem se afastando e morrendo como os outros! Fala como se fosse fácil estar no meu lugar! Não é! Você recruta pessoas, convive com elas até amá-las mais do que sua família, então vê seus braços e pernas separados de seus corpos! – se levanta, espalhando perdigotos pelo capacete e levantando o punho cerrado contra o centrado cientista. – E mesmo assim, enquanto recolhe seus pedaços, tem que se manter rígido e não esquecer que qualquer deslize pode te tirar os poucos que sobraram, mesmo que a chance deles sobreviverem seja menor que a de uma ninhada de gatos!


- Senhor! – o agora Tenente Kernel retorna batendo continência. – Tenho péssimas notícias.


- Ah, merda! O que foi agora? – Gallore se vira angustiado, por segundos leva as mãos ao coldre com vontade de puxar a arma e matar Kernel e Kaji ali mesmo para acabar com as noticias ruins e cobranças.


- Os... Os motores estão arruinados Capitão! Disseram que não há esperança nem de concerto. – dá dois passos para trás temendo ser punido. Mas de forma inesperada o Capitão Gallore suspira e desaba em sua cadeira cabisbaixo.


- Kaji, ainda temos tempo para responder às ordens do General Berguer?


- Creio que sim, se usarmos a energia restante na Imperatriz podemos fazer com que ela chegue antes da recusa enviada.


- Então tem sua primeira ordem como Imediato, Dr. Matsumoto. – recobra o orgulho. – Responda a ordem com afirmação, peça para que ignorem qualquer mensagem nossa posterior, mas avise que vamos precisar de carona. Só que dessa vez, em uma nave com aposentos decentes.


- Você sabe que ele vai odiar saber que perdemos outro cruzador.

17.6.09

Inumanos

Nehoma

- Capitão! - gritou um homem franzino, quase imperceptível em meio a outras pessoas, entre urros de fuzis e pistolas. - capitão! Estamos errmmm... - Mais tiros e um grito de agonia que não arrepiaria uma espinha, a faria em pedaços. -... estamos sofrendo de problemas inesperados.

Poucos instantes depois, a comporta da nave se abre e uma rampa desce. Dela sai um homem alto, imponente, com a barba por fazer, cabelos escuros e olhos atentos. Vestindo um fino traje militar com incontáveis botões com funções das quais ele mesmo provavelmente não se lembra.

É Tíbério Gallore, capitão de Imperatriz e uma lenda entre seus tripulantes. Assim que pisa no terreno árido e inóspito vê os tais problemas inesperados, seus soldados atirando quase em pânico contra coisas que parecem humanas, mas não podem ser. Ele vê e percebe que o confronto era injusto, cinco das coisas contra apenas três de sua tripulação.

Tibério não tinha notado uma que escalara Imperatriz, mas que logo se fez notar com um rugido esganiçado e prontamente saltou contra o capitão que quase ao mesmo tempo olhou para cima, deu um passo para a direita, se abaixou e sentiu o monstro passar a centímetros de suas costas. A coisa assim que tocou o chão tomou novo impulso contra Gallore que já tinha fechado o punho e retraído o braço direito, respondendo com um soco forte na cara cheia de saliva e dentes que avançava contra ele. A criatura estava desacordada.

O Capitão Gallore então olha para sua equipe e leva a mão ao coldre, nesse momento ele se lembra que esqueceu sua pistola sobre o criado mudo e então pragueja enquanto corre na direção do confronto.

- Atirem na cabeça! Atirem na cabeça! É uma ordem! - Ele gritava para seus tripulantes que pareciam não ouvir e acertavam no peito, nas pernas nos braços e se esquivavam de golpes.

Tibério então chega, pega o braço do homem franzino que o chamara e coloca o dedo no gatilho da arma.

Cinco tiros. Cinco quedas.

Ele arranca a arma da mão do homem e a trava. Todos os soldados tremiam feito crianças, ouso dizer que alguns até molharam as calças. Felizes de terem trajes impermeáveis.

- Droga Célio! Eu disse para atirarem na cabeça! - gritou o Capitão disparando perdigotos contra cada um dos envolvidos.

- Qual seu critério para decidir que atirar na cabeça seria o mais correto? - Desce da nave um jovem asiático, de óculos bem desenhados, cabelos milimétricamente arrumados, com um computador de bolso a mão fazendo anotações.

- Porque seria mais rápido e mais econômico. - Tibério faz com a mão um gesto que é prontamente atendido pelos homens, fazendo-os ir até a nave. - Muito conveniente para você só colocar esse traseiro magrelo para fora da nave depois que nós arriscamos os nossos. Explique-me Kaji, por que ainda mantenho você na tripulação?

- Porque sem mim você teria pelo menos 25 mortes entre suas estatísticas pessoais.

O Capitão ficou em silêncio, odiava dizer qualquer coisa como "faz sentido", "tem razão" ou o dolorido "obrigado". Mas Kaji já estava acostumado.

- Como sabia que a cabeça era o ponto mais frágil?

- Porque eles parecem com humanos, e se nos humanos a cabeça é a área mais frágil, neles também deveria ser. - O capitão conclui, entregando a arma para Kaji e se abaixando para analisar os corpos.

- Acho que só para você isso faz algum sentido.

Gallore vira os corpos tombados e vê que são realmente parecidos com humanos, mais altos, mais magros, pálidos e totalmente desprovidos de pelos, além de dentes afiadíssimos e olhos negros, profundos. Ele também notou que sua pele é demasiado elástica, quase uma borracha, o que explicava o fato de poucas balas terem penetrado o corpo. Mas em compensação, suas cabeças tinham pele mais fina, quase uma membrana. Eram aberrações.

- Alguma idéia do que essas coisas sejam? - Tibério olha para cima na direção de Kaji.

- Nenhuma. Mas posso dizer que são uma descoberta científica memorável. - Kaji então recebe uma mensagem em seu comunicador.

Tibério se levanta, suspira, tenta encaixar o raciocínio em seu devido lugar.

- Então que conste nos autos. - chuta a cabeça de uma das criaturas mortas. - estou extremamente satisfeito por colaborar com o avanço da ciência.

O Capitão vai na direção dos soldados e verifica se eles sedaram o alienígena desmaiado. E junto com eles o leva para dentro de Imperatriz.

****

- O que descobrimos? - Era Tibério, cansado de esperar 5 horas pelos exames de Kaji, foi até ele perguntar o que tinha conseguido.

- Primeiro que o sinal nesse fim de mundo é uma porcaria. Segundo, estamos de frente para a primeira mutação genética humana não monitorada que se tem notícia. - entrega uma prancheta para Tibério. - Agora tem outra façanha científica para colocar nos autos como sendo descoberta sua. - Sorri com ironia.

- Calma aí, quer dizer que essa coisa é um humano?

- Capitão Gallore! Doutor Matsumoto! - os interrompe um homem negro, alto e muito forte batendo continência e demonstrando respeito sincero pelos dois superiores dentro daquela sala.

- À vontade, tenente.

- A presença do senhor está sendo requisitada na ponte de comando para as permissões de liberação dos veículos de pesquisa.

Tibério e Kaji então se dirigem para a ponte de comando, lá chegando, torna-se notável a variedade étnica da tripulação. Isso se deve ao fato de Imperatriz ser uma das naves pertencentes à Força de Ordem Humana. Um exército militar criado em uma tentativa de união das supra-regiões a fim de tratar dos assuntos humanos sem arbritariedades, como os povos alienígenas fazem. Mas isso não deu muito certo já que as poucas naves participantes são apenas designadas para missões diplomáticas de pouca importância e de exploração de futuras colônias. Bom, a missão sofreu sérias reviravoltas nesse caso.

- Reporte as unidades envolvidas na missão de reconhecimento, Primeiro-Tenente Kaneda.

- Usaremos nossos três veículos de exploração com três soldados em cada, Capitão. - Respondeu o homem baixo com traços e severidade dignos de um samurai.

- Quer dizer que cabem mais dois? - Perguntou Tibério, que foi prontamente fitado com curiosidade por Kaji.

- Depois de suas descobertas, creio que vai querer ir também.

- Acertou, mas por que você também vai?

- Porque vamos finalmente ter alguma ação.

- Capitão! - Um homem, na casa dos 25, loiro e mirrado com um comunicador avançado na cabeça levanta a mão e se vira para Gallore e Matsumoto. Consegue a atenção de ambos. - Acabamos de receber um comunicado criptografado do General Berguer, ele ordena que deixemos de lado a missão atual e que partamos imediatamente para os limites de Alpha Centauri. Nossa missão é investigar a região na qual o corpo tecnorgânico foi descoberto.

Tibério parou por um instante, olhou a tripulação, suspirou e respondeu:

- Qual a cadência de transmissão, Oficial Lahm?

- Cerca de oito horas terrestres, Capitão.

- Responda com recusa, nossa missão é muito mais importante, e foi dada por alguém superior a ele. - o Capitão Gallore percebe temor nos olhos de Kaji.

- Tenente Kaneda, ordene que as equipes de exploração se posicionem, partiremos em quinze minutos.

Kaneda responde com uma continência e vai até um microfone comunicar as ordens a todos da nave.

- O que está olhando Dr. Matsumoto? Sei que você odeia a idéia de não poder estudar essas suas amadas aberrações técnobiológicas. Mas veja pelo lado bom, te deixo até dar um nome para nossas monstruosidades. Além do quê, não vou precisar te agüentar falando sobre elas como um fanático evolucionista, penso vendo você que deve ter sido um porre conviver com Darwin. – Tibério vai em direção a saída. – Agora vá arrumar seu equipamento de estudos. Temos trabalho a fazer.

11.1.08

Renovatio

O farfalhar do material plástico denunciava que a incubação já havia começado. Logo, lânguidos gemidos começaram a ecoar, e pequenos solavancos onde outrora havia uma cozinha começaram a se tornar freqüentes.

Não... por favor, ele não...” – foi o único pensamento que pôde passar pela mente do tenente Karl “Nigh” Gaerfner, enquanto observava aquilo que, poucos minutos atrás, fora seu melhor amigo.

-Resiste Was!

Mas, somente gritinhos e gemidos foram em sua resposta. Na mesa, literalmente soterrado por plásticos e outros materiais termo-isolantes, o também Tenente Nikkolai “Was” Heinderrs ainda dava sinais de que sua consciência agüentaria mais. Bem mais. Agüentaria, simplesmente, o pior. Ao redor dele, criaturas o observavam, pacientes, analisando tudo o que lhe ocorria.

Já haviam se passado 4 – talvez 5, ele se corrigiu – dias terrestres, desde que aquela missão diretamente ao circo de aberrações lhes fora sancionada, e ele não poderia deixar de se sentir culpado por tê-los levado deliberadamente até ela. Ele estava triste e melancólico com o final daquela relação que o havia feito saber quem era por grande parte de sua vida, e ele precisava de um pouco de aventura. Portanto, nada mais claro que, quando um sinal fraco mas indistintamente humano fora sentido de um ponto considerado como “terras hermas” do espaço de Zeta, ele seria o primeiro a se oferecer. Claro, quem poderia pensar que um sinal de resgate de uma freqüência tão conhecida poderia significar “armadilha mortal com coisas que possuem corpos”?

Ele fora avisado, é claro. Bem, isto é, se você considerar uma lenda para assustar recrutas da Força Aeroespacial da União como um aviso mais do que consideraria uma daquelas histórias de fantasmas que são vistas, em alta definição, por lobinhos e escoteiros, mostradas por tios imbecis que perdem o tempo comprando esses discos laser.

De todas as histórias que ali foram contadas, desde os dragões de néon que circundam as naves daqueles que estão marcados para morrer em Pégaso-51, até os devora entulhos dos buracos negros, aquela parecia ser a mais improvável. Afinal, quem acreditaria que uma sucata, como a Renovatio – antiga nave-colônia exploradora da União, antes mesmo que a União fosse “A União” – estivesse mesmo possuída pelo mal? Ou, por algum membro da guilda de Anthérion? Ou seja lá o que for que você acha que faz o contrário do que você gosta? Aliás, um mal com um senso de humor muito pobre, para tomar uma nave onde seu nome quer dizer nenascer, renovação, e abrir nela sua fábrica dos horrores.

Mas, ali estava ele, preso, o único dos 4 enviados que ainda usava seu traje espacial, já que era o único que ainda precisava de algum tipo de suprimento de oxigênio. Aliás, segundo lhe constava, ele era o único dos quatro que ainda era humano.

E isto parecia apenas uma questão de tempo.

11.6.07

Eu Sou

Mi Estas

Cambaleante, um pé, o outro, uma mão na parede. Números, números um e zero andando em seqüência na frente dos seus olhos, difícil de pensar. Concentrar. Computador, precisará traduzir os zeros e uns em seqüência que manuscreveu a noite toda e que ainda superpovoam sua cabeça. Um pé. Outro. O corredor é longo imenso, embora se lembre dele como curto. Difícil caminhar. As paredes de metal da Oportunidade não oferecem apoio. Um pé. O outro, não. Joelhos no chão, precisa se levantar, precisa continuar. Queda sobre a cadeira. Difícil falar, difícil pedir.

- Computador...

- Bom dia, doutor.

- Análise...

Abrir leitor, inserir dados. Tarefa simples para qualquer criança, mas heróica quando tudo que está na sua mente é 1 1 0 1 0 0 1 0 1 0 1 0 0 0 1 0 1 1 0 0 1 0 1 0 1 1 1 infinitos. Um som agudo, ouvidos dóem, olhos fecham. E então o silêncio, a clareza. Finalmente o dr. Silveira era ele mesmo nesta manhã.

Sem ruído algum, uma folha de papel foi emitida às mãos do cientista. Estranho, uma vez que não foi acompanhada de um cordial "sua análise está concluída, doutor", o que obviamente impedia que o doutor respondesse com um cordial, ainda que desnecessário, "obrigado".

Inconscientemente trêmulas, as mãos de Gustavo seguravam o papel diante de si. "Curioso, porque estou sentindo isso?" A mente de um cientista é algo realmente interessante, uma vez que, dentre todos os seres do universo, são os únicos cujo cérebro tem a capacidade de qestionar a razão de qualquer coisa, desde a existência de uma divindade superior até uma coceira no dedinho do pé esquerdo.

E então ele leu.


Eu sou o medo
Que vós tendes daquilo que escapa de vossa limitada percepção;
Eu sou a incerteza
Que vós sentis ao deparar-vos com as possibilidades infinitas do futuro;
Eu sou a desconfiança
Que vos torna incapazes de crer em teus pares e vos pondes equivocadamente acima de teus semelhantes;
Eu sou a desavença
Germinando lentamente em vossos cérebros incompatíveis;
Eu sou a solidão
Que vos assombra por serdes incapazes de encarar o infinito sem tentar vos comparar a ele;
Eu sou o silêncio
Que vos toma e torna vosso conhecimento inacessível e limitado;
Eu sou a dor
Espalhando-se inexoravelmente em vossos corpos e em vossas mentes;
Eu sou a cegueira
Que impondes a vós próprios quando impondes parâmetros mínimos a uma verdade cósmica;
Eu sou a dúvida;
Eu sou a corrupção;
Eu sou a mentira;
Eu sou a morte
E eu sou vós.


Contemplou o texto por um tempo, depois releu. Um poema. Um poema de morte. Uma mensagem, um aviso. Uma forma de comunicação de uma inteligência desconhecida. E hostil. Uma ameaça.

Não se desesperou, se alarmou e sequer seu coração deu-se ao trabalho de acelerar seus batimentos. Mas seu cérebro respondeu.

Eu sou o medo
Que vós tendes daquilo que escapa de vossa limitada percepção;

"Eu não temo, eu busco. Se há algo que me escapa, eu não descanso até entendê-lo; se minha percepção é limitada, eu crio os meios para expandi-la."

Eu sou a incerteza
Que vós sentis ao deparar-vos com as possibilidades infinitas do futuro;

"Não hé incerteza, há a ignorância. E minha existência dedica-se a erradicá-la. As possibilidaes do futuro são tão infinitas quanto a minha capacidade de reduzi-las."

Eu sou a desconfiança
Que vos torna incapazes de crer em teus pares e vos pondes equivocadamente acima de teus semelhantes;

"Desconfiança só afeta aqueles incapazes de encontrar o denominador comum em um ponto de discórdia. Ninguém está acima de ninguém, todos evoluímos e temos nosso lugar no universo."

Eu sou a desavença
Germinando lentamente em vossos cérebros incompatíveis;

"Nossas diferenças nos fortalecem, um cérebro complementa o outro. Somos individualmente limitados, mas unidos nossas realizações são incomensuráveis."

Eu sou a solidão
Que vos assombra por serdes incapazes de encarar o infinito sem tentar vos comparar a ele;

"Sim, comparo-me ao infinito, mas não me sinto insignificante. Apenas percebo que ainda há muito a ser descoberto, o quão imensa deverá ser nossa criatividade para preencher tanto espaço."

Eu sou o silêncio
Que vos toma e torna vosso conhecimento inacessível e limitado;

"Então eu sou a voz, e todos, inclusive eu, seremos ouvidos."

Eu sou a dor
Espalhando-se inexoravelmente em vossos corpos e em vossas mentes;

"Aqueles que sentem dor são os únicos capazes de realmente valorizar sua existência. É isso que torna as criaturas vivas mais perfeitas que qualquer máquina."

Eu sou a cegueira
Que impondes a vós próprios quando impondes parâmetros mínimos a uma verdade cósmica;

"Parâmetros existem para serem destruídos. A verdade só é verdade até que seja desvendada como mais uma mentira. Se não a conheço, certamente lutarei para conhecê-la."

Eu sou a dúvida;

"Eu sou a descoberta."

Eu sou a corrupção;

"Não se vende a própria vida."

Eu sou a mentira;

"Então sois efêmero."

Eu sou a morte

"Eu sou meus filhos, meus netos, bisnetos... sou infinito!"

E eu sou vós.

"Eu sou a inteligência da vida. Sou a única coisa capaz de vos deter."




Inspirado pela música "Cosmic Fusion", do Ayreon, parte da ópera metal "Into the Electric Castle"

3.4.07

Estranhos Estranhos

Stranga Nekonatoj

Se você acorda pela manhã e, quando olha para o espelho, não vê a si próprio, o que faz? O que pensa? Exatamente. Era isso que o Capitão Gael Wülf sentia naquela manhã. O reflexo que olhava de volta inquisitivamente pouco lembrava sua própria face. Um fantasma, um zumbi, era isso que via. Um olhar morto, um rosto cadavérico, pálido. Dias sem dormir, e quando dormia era certeza de pesadelo. O capitão da Oportunidade aguardara ansiosamente pela chegada da Onda, o raro fenômeno cósmico, agora iminente, mas não queria que fosse daquele jeito. Não com tanta gente, não com uma crise de alienígenas nunca antes vistos e potencialmente hostis a ser resolvida. Wülf agora entendia. A Onda era como uma droga, que desperta sua consciência para a multiplicidade, infinitude e infimidade do universo, mas, ao contrário dos químicos, ela não destruía seu corpo, ela o fortalecia. Mas ela viciava.

- Capitão – chamava a imediata Torres pelo intercomuncador. – é melhor o senhor subir à ponte.

Caminhando passos lentos e arrastados de quem acabou de acordar, ainda que a última vez que tenha de fato acordado tinha sido já há algum tempo, o capitão passava pelos corredores de sua nave, sua casa, como Geni entregava-se ao homem do zepelim na antiga parábola. A altivez de herói de guerra havia sumido, o respeito que era de se esperar de quem já havia executado tantos feitos grandiosos não mais era inspirado em ninguém. Pena. Era isso que Gael despertava nas pessoas naquelas horas.

A porta abriu, silenciosa, enquanto o capitão tentava se recompor para encontrar sua tripulação. Os olhos de seus oficiais o perseguiam, mas ele não podia fugir. Ele era o capitão da Oportunidade, oras.

- Bom dia, imediata, o que tem pra mim?

- Bom dia, senhor. Os sensores detectaram múltiplos buracos de minhoca do lado oposto do cinturão de asteróides.

- Quando isso?

- Acabaram de chegar, senhor. Até o momento contamos dezesseis naves grandes, possivelmente naves-mãe. Tentamos entrar em contato, mas a estrela tá bloqueando o sinal.

- Vamos manobrar pra conseguirmos sinal. Se tem dezesseis naves, devem ser de alguma raça com quatro dedos em cada mão. Temos alguma informação sobre alguém que teria o que fazer pra essas bandas?

- Mehdikhani? – a imediata virou-se para um dos oficiais, um rapaz moreno que não tirava os olhos de um monitor.

- Um momento, senhora... aqui. Parece que fechamos um acordo com Aduuhr há algumas semanas que dá a eles o direito de explorar o lado de lá do cinturão.

- Ah, que ótimo! Mandam minha nave para um sistema e nem me avisam que não tenho jurisdição sobre ele todo!

O capitão estava transtornado. Controlando-se, mas transtornado. Não era nem o problema de de repente ter que lidar com uma outra raça sem estar sabendo. Isso, Wülf já havia feito milhares de vezes antes. O problema era a Onda. De novo, a Onda, a maior resposta e fonte de perguntas de sua vida. Antes que fosse capaz de concluir sua odiosa linha de pensamento, o jovem Mehdikhani interrompeu:

- Tem mais, senhor. Quem fechou o acordo foi nosso hóspede, o senhor Cassini.

O Capitão suspirou, coçou os olhos e resmungou:

- Mandem o senhor Cassini subir aqui.

***

Em comparação ao sério silêncio da ponte, a chegada de Miguel Cassini, quarenta e cinco minutos depois que fora chamado, parecia uma tempestade. Não que fosse particularmente barulhento, mas sim porque a tripulação estava atipicamente quieta.

- Quem morreu?

- Cassini, por que tem aduuhranos do outro lado do cinturão de asteróides? - logo se via que senso de humor não era o forte do Capitão.

- Pois é, não te contaram? Eles trocaram cinco anos de combustível pelos direitos de explorar aquele lado do cinturão, vai entender.

Dentre todos os presentes, Gael Wülf era o único que entendia. E não gostava nem um pouco do rumo que aquela história estava tomando.

- Vem cá, Cassini. O almirante da frota deles tá na linha.

O capitão levou seu colega negociador até um dos terminais de comunicação no sobrepiso.

- Na tela! - ordenou, fazendo com que o grande visor deixasse de exibir o espaço fora da Oportunidade e passasse a mostrar uma criatura de longos pêlos marrom-acinzentados, lábios protuberantes à frente de um longo focinho, trajando vestes soltas, porém ricamente detalhadas. O líder aduuhrano parecia ainda mais áspero do que era de se esperar de um dos seus. E então Miguel o abordou. Em aduuhrano, claro.

- Glukta viiz, hamaak je tuun. Hanja-nii guk, mih-ti ne cluuhz.

O almirante riu do outro lado da linha.

Observando sem entender, Wülf mostrava-se tenso. Afinal, se Cassini escolhesse dialogar com o alienígena em esperanto ao invés de aduuhrano, o sistema de tradução funcionaria e as palavras do almirante seriam gentilmente legendadas a todos que quisessem lê-las.

O diálogo prosseguiu por alguns minutos, até que algum dos dois de despediu e o outro desligou.

- O que você tá escondendo, Cassini?

- O quê?

- Porque não conversou com ele em esperanto pra todo mundo entender?

- São pequenos detalhes da diplomacia que eu não espero que seja capaz de apreciar, Capitão. E então, quer saber o que a gente conversou?

O diplomata achou que o resmungo de Wülf queria dizer "sim", e então explicou:

- Primeiro, o Almirante Haashtah perguntou se estávamos a par da presença destes "desconhecidos", e se a gente sabia alguma coisa sobre eles. Disse que sim, estávamos a par de sua chegada iminente, mas não conseguimos descobrir nada sobre eles. Ele me falou algumas coisas técnicas que depois traduzirei com calma para perguntar para alguém que tenha algum conhecimento sobre rebimboca da parafuseta, e então ele disse que uma das filhas dele está para completar dezenove anos e que ele gostaria que esse assunto fosse resolvido logo para aproveitar a festa da menina.

- Nada de útil.

- Ah, ele também pediu que eu te agradecesse pelos reforços neste momento de crise.

- O quê? Mas que ref...

- Senhor! - uma jovem oficial de olhos puxados e pele cor de cobre interrompeu impetuosamente - Múltiplos buracos de minhoca no quadrante alfa, senhor! Sete, nove, treze... quinze naves classe B ou C!

- Mas que merda... Contato, rápido!

- Procurando... sim, contato visual, senhor! Mas...

- Mas o quê, criatura?

- É a insígnia do Leão Branco, senhor! São naves da Euroáfrica!

5.1.07

Boa Noite

Bonan Nokton

Os cinco saíram exaustos da longa reunião, na qual nada foi realmente descoberto e muito pouco foi efetivamente decidido. Um a um, deixaram a sala para seus aposentos, em busca de um merecido descanso para o corpo e alguma luz para o cérebro.

***

Carolina Lykos deixou-se cair sobre a cama como se pesasse toneladas. Impossível era deixar de pensar em como se sentia excluída entre as pessoas mais importantes da civilização humana atual. Quem era ela, afinal? A especialista em Relações Públicas andando por aí com a maior mente, o maior guerreiro, o maior diplomata e o líder destes três. Sentia-se mal. Tinha que fazer seu trabalho, é claro, e tinha plena consciência de que, apesar dele ser essencial, jamais teria glórias. Ossos do ofício.

Mas o que a incomodava mais não era ela se sentir inferiorizada, mas sim o fato dos demais (com exceção, talvez, do próprio onipresidente Reis) não fazerem questão alguma de deixá-la mais confortável. Suas opiniões sempre eram relegadas ao segundo plano, a palavra mal era passada a ela e raramente fazia parte de alguma decisão. Era sempre "o que acha, Carolina?", e antes que pudesse concluir qualquer raciocínio era interrompida pela voz de um dos grandes heróis da raça humana. Heróis. E ela era só uma qualquer.

Certamente, discordava de algumas das coisas ditas naquela sala, sabia que algumas das decisões tomadas afetariam a opinião pública de forma negativa e que algumas coisas postergadas eram emergência. Mas também, naquele momento, sua posição de inferioridade fazia com que ela pouco se lixasse. Afinal, pensando bem, dentro de poucos dias estariam todos mortos.

Ela rezou e dormiu.

***

O quarto do capitão era o mais confortável, mais até que o do onipresidente, já que, se alguém presente na nave tinha que descansar bem, essa pessoa era o capitão. Dentro da nave, ninguém era mais importante, ninguém tinha que tomar mais decisões e ninguém tinha mais responsabilidade sobre a vida de todos os demais tripulantes do que o capitão.

Na Oportunidade, o fardo do capitão Wülf era ainda mais pesado. Não era só a vida da tripulação que tinha sob suas asas, era a vida de um sistema solar inteiro, de toda raça humana.

Deitou-se, após dois comprimidos e um copo de uísque. Sonhou com a irmã, com ciborgues amebóides e com sangue, muito sangue. E sonhou com a realidade se curvando em ondas provenientes do infinito. Sonhou que era um com o universo. Mas foi só um sonho.

A irmã dele tem sonhos premonitórios, sabe? Mas ele não acredita nessas coisas.

***

Ao abrir automático da porta, a voz da secretária virtual do quarto anunciou:

- Boa noite, doutor. Há uma ligação urgente do doutor Hamud Ibn-Nur para o senhor em minha memória.

- Pode tocar.

Os sons eram indescritíveis. Horríveis, horripilantes. Estampavam dor, carne rasgada, bipes. A tela mostrava chuviscos às vezes interrompidos por luzes verdes ou vermelhas. O dr. Gustavo Silveira a tocou de novo, de novo e de novo. Suava frio só de pensar o que poderia haver de errado com o dr. Hamud, que ele pessoalmente tinha deixado responsável pela Espécie Tecnorgânica I em sua ausência.

Na quarta vez, conseguiu distinguir uma frase, dentre os gritos e chiados:

- Sexuada. Definitivamente sexuada.

Gustavo Silveira tentou acalmar-se e pensar direito. Tinha duas certezas: seu colega estava morto, e todos na estação de pesquisa corriam o mesmo perigo. O mais lógico seria ligar para lá e passar algumas instruções, averiguar o que aconteceu. Porém, sentou-se ao computador e passou a noite escrevendo sem parar. Quando finalmente deitou-se para ler o que havia escrito, não conseguiu entender nada.

Havia passado a noite inteira digitando uma seqüência interminável de zeros e uns.

***

- Olá Miguel.

- Ônix, minha bela Ônix, é um prazer incomensurável ouvir sua doce voz no final do dia.

- Eu sei, meu amor... fui programada para isso. Venha, deixa eu te fazer uma massagem.

- Ah, Ônix, só você para saber exatamente o que eu preciso.

- Me conta, querido, como foi a reunião?

- Minha cara, não quero te importunar com detalhes enfadonhos de uma reunião com pessoas chatas... aposto que podemos passar uma noite muito mais agradável sem isso.

- Ah, não fica irritado, gatão... você sabe que eu vou ficar quietinha enquanto você me falar tudinho... e eu sei que você também quer me contar... prometo que se você falar tudo eu te dou uma recompensa especial.

- Ai ai, o que seria de mim sem você... adoro o fato de você ser uma mulher virtual especialmente preparada para atender minhas vãs necessidades psico-fisiológicas.

- Ei sei, Miguel. Conta pra mim, conta.

Miguel contou tudo enquanto a consicência virtual Ônix balançava a cabeça, acariciava seus cabelos e massageava as costas. Dormiu feito um anjo após duas horas de sexo com a holografia sólida. Nem sonhou.

***

O onipresidente Reis entrou no quarto, colocou para ouvir uma canção relaxante e sonhou que era um ciclista.

***

São treze e quarenta e três no Complexo de Comunicação Interestelar da Euroáfrica. Como era de se esperar desta época do ano, a Euroáfrica subsaariana estava um inferno de quente. Claro que não era bem por isso que a Tenente-Coronel Vanya Byr usava trajes tão curtos. Ela se vestia exatamente assim nas convenções do partido no inverno congelado da Escandinávia.

- E então? – Karolus Guttenberg entrou na sala após a luz vermelha que indica "em uso" se apagou.

- Foi melhor do que imaginava. Tenho muito a relatar.

- Descobriu muita coisa?

- Descobri tudo. Reis está nas nossas mãos.

- E ele?

- Cassini? Acredita piamente que eu sou um programa de computador. Incrível não?

- Incrível.

14.12.06

Gato Preto

Nigra Kato

Se eu não fosse divorciado, eu ia ter que ouvir minha mulher dizendo “não disse?”. Mas também, não ia ter dançado tanto, bebido tanto e com certeza ia ter dormido mais cedo, e também me divertido bem menos. Ela era (era não porque não morreu de verdade, mas porque morreu pra mim) uma insuportável, é a cara dela dizer pra não atravessar a nebulosa com sono. Mas no fim das contas eu sou divorciado, dancei com umas vinte fêmeas, bebi todas e dormi só uma hora e meia antes de pegar a nebulosa. Eu juro que tomei pó de guaraná (dos transgênicos, o vendedor me garantiu que era tiro e queda), mas não funcionou direito, já que, se for ver, era o cansaço dos pés, a bebice do cérebro e a poeira nos olhos contra só uma cápsula de pó de guaraná. Tá, tá, duas, vai. De qualquer forma, não tiveram chance. Colisão, gerador de buraco-de-minhoca quebrado e pronto, fiquei lá, uns dois dias indo devagarzinho na direção de uma estrela.

Não tinha muito o que fazer, daí fiquei esperando o computador de bordo me responder qual estrela era. Psi do Capricórnio, terra de nolos.

Os nolograbianos, ou simplesmente nolos, foram os primeiros ETs a terem contato aberto com a humanidade, sei lá, uns duzentos anos atrás. Eles vieram de Delta do Capricórnio, ali do lado, de um planeta chamado Nolograb, que na língua deles quer dizer "Lar dos Homens" (claro que quando dizem "homens" estão falando deles mesmos), "nolo" é a palavra que significa "nós" (que na verdade é eles... ah, você entendeu) e "grab" significa "lar". Bom, quando encontraram o planeta Terra perdido no meio do universo, foi uma revolução: trouxeram tecnologia avançada, expandiram nossos conhecimentos, ensinaram pra gente xenologia, xenopolítica e astrografia, e até despertaram na gente um espírito de comunidade que fez a gente se juntar e aí surgiu a União. Mas a graça não é essa. A graça é que, por algum motivo, depois que contataram os terráqueos, aconteceu um monte de coisas que levou a civilização deles, de repente, à queda. Eles até têm um ditado: quando dizem que "tal fulano contatou os terráqueos", querem dizer que ele foi à falência, se deu mal na vida. Daí os nolos acreditam seriamente que os seres humanos dão azar.

Normalmente eu ia tentar evitar esse tipo de encontro. Sabe como é, se você é um gato preto não querer cruzar com um monte de gente que acha que você vai ferrar a vida deles. Mas a uma hora dessas, depois de uma viagem de bosta, um gerador de buraco-de-minhoca quebrado e dias flutuando que nem caramujo pelo espaço, você não liga pra essas coisas. Você quer parar no primeiro lugar e tomar uma cerveja (como se fosse ter bebida humana pra vender em alguma colônia de Nolograb, mas enfim...). Consegui pusar, daquele jeito, em um espaçoposto avançado em um planetóide na periferia do sistema. Tinha uma pá de luzes coloridas berrantes, porque a rocha ficava muito longe da estrela e por isso era muito escuro, naves velhas, envenenadas ou só esquisitas mesmo, o lugar meio que caindo aos pedaços... uma pocilga. Do jeito que eu gosto.

O bom de uma espelunca dessas é que não tem formalidade. Você chega pousando a nave, não tem que ficar pedindo autorização de pouso e tal. Você chega perto e alguém abre a escotilha para você, já que pra eles quanto mais gente, melhor. Isso evita um monte de situações chatas e, melhor ainda, aumenta a surpresa.

Na hora que eu cheguei, pensei: "bom, vou chegar já avisando que eu cheguei pra não assustar os caras". Aí eu entrei e a primeira coisa que eu fiz foi gritar:

- E aí, pessoal!

Mano, foi só eu fazer isso e olha o que aconteceu: um nolo que tava indo no banheiro deu de cara com a porta; a garçonete derrubou uma taça de um negócio verde-limão em cima de um cara que tava sentado, quebrou o copo e o cara ficou brilhando a noite inteira depois; um casal que ia se beijar bateu a cabeça; a caixa de som da banda estourou e o barman deixou cair óleo em cima do fogão, fazendo pegar fogo no troço que ele tava fazendo.

Depois dessa, pensei: "putz, agora vou ter que beber". Pedi lá o negócio mais forte que eles tinham (até agora não consigo pronunciar o nome daquela joça), e, mano, parecia que cada gole que eu dava, acontecia alguma coisa. Ou era nego começando briga porque bateu no outro sem querer, ou lustre caindo no meio da galera, comida voando pra lá e pra cá, mesas quebrando, panelas explodindo, gente caindo, gente morrendo, enfim, uma trexeira só. Demorou um pouco, eu já tinha passado do limite da memória e a parte seguinte eu só lembro uns fleches, só sei que eles se tocaram que tava acontecendo acidentes demais, e se ligaram que a culpa era minha.

A próxima coisa que eu lembro é que eu tava na nave, fugindo, e o computador não conseguia entender o que eu falava, e os caras tavam chegando, mas aí o da frente tropeçou e derrubou todo mundo, eu consegui digitar o comando no teclado (já tinha desistido de falar), a nave saiu e eu ainda consegui desviar de uns asteróides que tavam vindo na minha direção antes de apagar.

No dia seguinte aquela dor de cabeça básica, eu ligo o jornal e dá a notícia: o tal do boteco que eu tava ontem tinha sido destruído por uma chuva de meteoros que ninguém tinha previsto. Parece que uma "nave errante" tirou alguns asteróides da rota e por algum motivo bizarro eles não só colidiram com o lugar, mas também o explidiram.

É, os nolos acreditam que quando um de nós cruza o caminho deles eles têm azar. E naquele dia eu cruzei com o caminho de um monte.