3.4.07

Estranhos Estranhos

Stranga Nekonatoj

Se você acorda pela manhã e, quando olha para o espelho, não vê a si próprio, o que faz? O que pensa? Exatamente. Era isso que o Capitão Gael Wülf sentia naquela manhã. O reflexo que olhava de volta inquisitivamente pouco lembrava sua própria face. Um fantasma, um zumbi, era isso que via. Um olhar morto, um rosto cadavérico, pálido. Dias sem dormir, e quando dormia era certeza de pesadelo. O capitão da Oportunidade aguardara ansiosamente pela chegada da Onda, o raro fenômeno cósmico, agora iminente, mas não queria que fosse daquele jeito. Não com tanta gente, não com uma crise de alienígenas nunca antes vistos e potencialmente hostis a ser resolvida. Wülf agora entendia. A Onda era como uma droga, que desperta sua consciência para a multiplicidade, infinitude e infimidade do universo, mas, ao contrário dos químicos, ela não destruía seu corpo, ela o fortalecia. Mas ela viciava.

- Capitão – chamava a imediata Torres pelo intercomuncador. – é melhor o senhor subir à ponte.

Caminhando passos lentos e arrastados de quem acabou de acordar, ainda que a última vez que tenha de fato acordado tinha sido já há algum tempo, o capitão passava pelos corredores de sua nave, sua casa, como Geni entregava-se ao homem do zepelim na antiga parábola. A altivez de herói de guerra havia sumido, o respeito que era de se esperar de quem já havia executado tantos feitos grandiosos não mais era inspirado em ninguém. Pena. Era isso que Gael despertava nas pessoas naquelas horas.

A porta abriu, silenciosa, enquanto o capitão tentava se recompor para encontrar sua tripulação. Os olhos de seus oficiais o perseguiam, mas ele não podia fugir. Ele era o capitão da Oportunidade, oras.

- Bom dia, imediata, o que tem pra mim?

- Bom dia, senhor. Os sensores detectaram múltiplos buracos de minhoca do lado oposto do cinturão de asteróides.

- Quando isso?

- Acabaram de chegar, senhor. Até o momento contamos dezesseis naves grandes, possivelmente naves-mãe. Tentamos entrar em contato, mas a estrela tá bloqueando o sinal.

- Vamos manobrar pra conseguirmos sinal. Se tem dezesseis naves, devem ser de alguma raça com quatro dedos em cada mão. Temos alguma informação sobre alguém que teria o que fazer pra essas bandas?

- Mehdikhani? – a imediata virou-se para um dos oficiais, um rapaz moreno que não tirava os olhos de um monitor.

- Um momento, senhora... aqui. Parece que fechamos um acordo com Aduuhr há algumas semanas que dá a eles o direito de explorar o lado de lá do cinturão.

- Ah, que ótimo! Mandam minha nave para um sistema e nem me avisam que não tenho jurisdição sobre ele todo!

O capitão estava transtornado. Controlando-se, mas transtornado. Não era nem o problema de de repente ter que lidar com uma outra raça sem estar sabendo. Isso, Wülf já havia feito milhares de vezes antes. O problema era a Onda. De novo, a Onda, a maior resposta e fonte de perguntas de sua vida. Antes que fosse capaz de concluir sua odiosa linha de pensamento, o jovem Mehdikhani interrompeu:

- Tem mais, senhor. Quem fechou o acordo foi nosso hóspede, o senhor Cassini.

O Capitão suspirou, coçou os olhos e resmungou:

- Mandem o senhor Cassini subir aqui.

***

Em comparação ao sério silêncio da ponte, a chegada de Miguel Cassini, quarenta e cinco minutos depois que fora chamado, parecia uma tempestade. Não que fosse particularmente barulhento, mas sim porque a tripulação estava atipicamente quieta.

- Quem morreu?

- Cassini, por que tem aduuhranos do outro lado do cinturão de asteróides? - logo se via que senso de humor não era o forte do Capitão.

- Pois é, não te contaram? Eles trocaram cinco anos de combustível pelos direitos de explorar aquele lado do cinturão, vai entender.

Dentre todos os presentes, Gael Wülf era o único que entendia. E não gostava nem um pouco do rumo que aquela história estava tomando.

- Vem cá, Cassini. O almirante da frota deles tá na linha.

O capitão levou seu colega negociador até um dos terminais de comunicação no sobrepiso.

- Na tela! - ordenou, fazendo com que o grande visor deixasse de exibir o espaço fora da Oportunidade e passasse a mostrar uma criatura de longos pêlos marrom-acinzentados, lábios protuberantes à frente de um longo focinho, trajando vestes soltas, porém ricamente detalhadas. O líder aduuhrano parecia ainda mais áspero do que era de se esperar de um dos seus. E então Miguel o abordou. Em aduuhrano, claro.

- Glukta viiz, hamaak je tuun. Hanja-nii guk, mih-ti ne cluuhz.

O almirante riu do outro lado da linha.

Observando sem entender, Wülf mostrava-se tenso. Afinal, se Cassini escolhesse dialogar com o alienígena em esperanto ao invés de aduuhrano, o sistema de tradução funcionaria e as palavras do almirante seriam gentilmente legendadas a todos que quisessem lê-las.

O diálogo prosseguiu por alguns minutos, até que algum dos dois de despediu e o outro desligou.

- O que você tá escondendo, Cassini?

- O quê?

- Porque não conversou com ele em esperanto pra todo mundo entender?

- São pequenos detalhes da diplomacia que eu não espero que seja capaz de apreciar, Capitão. E então, quer saber o que a gente conversou?

O diplomata achou que o resmungo de Wülf queria dizer "sim", e então explicou:

- Primeiro, o Almirante Haashtah perguntou se estávamos a par da presença destes "desconhecidos", e se a gente sabia alguma coisa sobre eles. Disse que sim, estávamos a par de sua chegada iminente, mas não conseguimos descobrir nada sobre eles. Ele me falou algumas coisas técnicas que depois traduzirei com calma para perguntar para alguém que tenha algum conhecimento sobre rebimboca da parafuseta, e então ele disse que uma das filhas dele está para completar dezenove anos e que ele gostaria que esse assunto fosse resolvido logo para aproveitar a festa da menina.

- Nada de útil.

- Ah, ele também pediu que eu te agradecesse pelos reforços neste momento de crise.

- O quê? Mas que ref...

- Senhor! - uma jovem oficial de olhos puxados e pele cor de cobre interrompeu impetuosamente - Múltiplos buracos de minhoca no quadrante alfa, senhor! Sete, nove, treze... quinze naves classe B ou C!

- Mas que merda... Contato, rápido!

- Procurando... sim, contato visual, senhor! Mas...

- Mas o quê, criatura?

- É a insígnia do Leão Branco, senhor! São naves da Euroáfrica!

3 comentários:

Tahkren disse...

"É a insígnia do Leão Branco, senhor! São naves da Euroáfrica!"

Muito bom.

Tava inspirado hein?

Questão disse...

eu gostei muito desse universo,queria saber mais da cronologia do seu universo,eu olhei um pouco sobre datas na historia,queria conhecer mais sobre esse universo

Larissa Marques disse...

Sei de uma coisa, quando me olho no espelho, a qualquer momento, não me reconheço.
Adorei a aura de outro universo, o seu, neste caso.
Beijo!