14.12.06

Gato Preto

Nigra Kato

Se eu não fosse divorciado, eu ia ter que ouvir minha mulher dizendo “não disse?”. Mas também, não ia ter dançado tanto, bebido tanto e com certeza ia ter dormido mais cedo, e também me divertido bem menos. Ela era (era não porque não morreu de verdade, mas porque morreu pra mim) uma insuportável, é a cara dela dizer pra não atravessar a nebulosa com sono. Mas no fim das contas eu sou divorciado, dancei com umas vinte fêmeas, bebi todas e dormi só uma hora e meia antes de pegar a nebulosa. Eu juro que tomei pó de guaraná (dos transgênicos, o vendedor me garantiu que era tiro e queda), mas não funcionou direito, já que, se for ver, era o cansaço dos pés, a bebice do cérebro e a poeira nos olhos contra só uma cápsula de pó de guaraná. Tá, tá, duas, vai. De qualquer forma, não tiveram chance. Colisão, gerador de buraco-de-minhoca quebrado e pronto, fiquei lá, uns dois dias indo devagarzinho na direção de uma estrela.

Não tinha muito o que fazer, daí fiquei esperando o computador de bordo me responder qual estrela era. Psi do Capricórnio, terra de nolos.

Os nolograbianos, ou simplesmente nolos, foram os primeiros ETs a terem contato aberto com a humanidade, sei lá, uns duzentos anos atrás. Eles vieram de Delta do Capricórnio, ali do lado, de um planeta chamado Nolograb, que na língua deles quer dizer "Lar dos Homens" (claro que quando dizem "homens" estão falando deles mesmos), "nolo" é a palavra que significa "nós" (que na verdade é eles... ah, você entendeu) e "grab" significa "lar". Bom, quando encontraram o planeta Terra perdido no meio do universo, foi uma revolução: trouxeram tecnologia avançada, expandiram nossos conhecimentos, ensinaram pra gente xenologia, xenopolítica e astrografia, e até despertaram na gente um espírito de comunidade que fez a gente se juntar e aí surgiu a União. Mas a graça não é essa. A graça é que, por algum motivo, depois que contataram os terráqueos, aconteceu um monte de coisas que levou a civilização deles, de repente, à queda. Eles até têm um ditado: quando dizem que "tal fulano contatou os terráqueos", querem dizer que ele foi à falência, se deu mal na vida. Daí os nolos acreditam seriamente que os seres humanos dão azar.

Normalmente eu ia tentar evitar esse tipo de encontro. Sabe como é, se você é um gato preto não querer cruzar com um monte de gente que acha que você vai ferrar a vida deles. Mas a uma hora dessas, depois de uma viagem de bosta, um gerador de buraco-de-minhoca quebrado e dias flutuando que nem caramujo pelo espaço, você não liga pra essas coisas. Você quer parar no primeiro lugar e tomar uma cerveja (como se fosse ter bebida humana pra vender em alguma colônia de Nolograb, mas enfim...). Consegui pusar, daquele jeito, em um espaçoposto avançado em um planetóide na periferia do sistema. Tinha uma pá de luzes coloridas berrantes, porque a rocha ficava muito longe da estrela e por isso era muito escuro, naves velhas, envenenadas ou só esquisitas mesmo, o lugar meio que caindo aos pedaços... uma pocilga. Do jeito que eu gosto.

O bom de uma espelunca dessas é que não tem formalidade. Você chega pousando a nave, não tem que ficar pedindo autorização de pouso e tal. Você chega perto e alguém abre a escotilha para você, já que pra eles quanto mais gente, melhor. Isso evita um monte de situações chatas e, melhor ainda, aumenta a surpresa.

Na hora que eu cheguei, pensei: "bom, vou chegar já avisando que eu cheguei pra não assustar os caras". Aí eu entrei e a primeira coisa que eu fiz foi gritar:

- E aí, pessoal!

Mano, foi só eu fazer isso e olha o que aconteceu: um nolo que tava indo no banheiro deu de cara com a porta; a garçonete derrubou uma taça de um negócio verde-limão em cima de um cara que tava sentado, quebrou o copo e o cara ficou brilhando a noite inteira depois; um casal que ia se beijar bateu a cabeça; a caixa de som da banda estourou e o barman deixou cair óleo em cima do fogão, fazendo pegar fogo no troço que ele tava fazendo.

Depois dessa, pensei: "putz, agora vou ter que beber". Pedi lá o negócio mais forte que eles tinham (até agora não consigo pronunciar o nome daquela joça), e, mano, parecia que cada gole que eu dava, acontecia alguma coisa. Ou era nego começando briga porque bateu no outro sem querer, ou lustre caindo no meio da galera, comida voando pra lá e pra cá, mesas quebrando, panelas explodindo, gente caindo, gente morrendo, enfim, uma trexeira só. Demorou um pouco, eu já tinha passado do limite da memória e a parte seguinte eu só lembro uns fleches, só sei que eles se tocaram que tava acontecendo acidentes demais, e se ligaram que a culpa era minha.

A próxima coisa que eu lembro é que eu tava na nave, fugindo, e o computador não conseguia entender o que eu falava, e os caras tavam chegando, mas aí o da frente tropeçou e derrubou todo mundo, eu consegui digitar o comando no teclado (já tinha desistido de falar), a nave saiu e eu ainda consegui desviar de uns asteróides que tavam vindo na minha direção antes de apagar.

No dia seguinte aquela dor de cabeça básica, eu ligo o jornal e dá a notícia: o tal do boteco que eu tava ontem tinha sido destruído por uma chuva de meteoros que ninguém tinha previsto. Parece que uma "nave errante" tirou alguns asteróides da rota e por algum motivo bizarro eles não só colidiram com o lugar, mas também o explidiram.

É, os nolos acreditam que quando um de nós cruza o caminho deles eles têm azar. E naquele dia eu cruzei com o caminho de um monte.

4 comentários:

Tahkren disse...

Quá! Adorei. Bem light esse.

Fabio Ciccone disse...

Foi divertido escrever... tentei imitar o Guimarães Rosa e escrever em língua falada... mas pelamor, em sotaque paulista que pra escrever naquele nordestino de raiz que ele escreve tem que ser... bem, tem que ser um Guimarães Rosa :P

André Lasak disse...

Tá muito bom!

Super divertida e pitoresca essa superstição dos nolos... hehehehe

Abração!

vahnzz sam disse...

você deu azar pros "cara"

hehehe