14.11.06

A Onda

La Ondo

Um soco bem no meio da cara.

- Eu acreditei em você, Capitão! Acreditei em tudo que você tinha dito!

Não houve resposta.

O fato do tenente Charles Beckings da Oportunidade estar em pé, de punhos cerrados, e seu capitão Gael Wülf estar no chão, se levantando enquanto limpava o sangue em sua boca, era suficiente para deixar o tenente preso por tempo indeterminado por insubordinação. Mas nada disso tinha importânica. Não quando os dois estavam sozinhos, na beirada de um penhasco, respirando o fétido e revolto ar da Colônia Sírio 1. Ainda menos quando a um deles o paraíso havia sido prometido e negado pelo outro.

- Você prometeu, capitão. Você tinha me falado da Onda, tinha me falado que era como sentir todo o universo, tinha me falado de tudo isso. Eu lutei ao seu lado, eu segui suas ordens, tudo isso para nada!

- Você prestou um excelente serviço para a União.

- Dane-se a União! Eu fiz isso por você, capitão! Porque acreditei nas merdas que você me falou! Você foi meu guia, capitão, e eu te segui, e ia seguir até o inferno!

- E agora vai me mandar para lá, é isso?

- Você tirou parte da minha vida, capitão, então eu vou tirar a sua.

O vento uivava com violência, movendo as nuvens acinzentadas pelo céu cor de musgo do crepúsculo da colônia e calando a voz turbulenta do tenente Beckings. Se ele não podia fazer sentir sua ira por meio da voz, ele então o faria pelos punhos. Que o mentiroso capitão beijasse novamente a rocha negra e fria do solo da colina.

***

Uma lembrança.

O jovem e proeminente imediato Wülf conta uma história, de sobre como ele passou meses preso em um calabouço sujo em um satélite lank durante a Guerra das Cobaias, e sobre a história que o alguilês na cela da frente contou a ele, a história das Ondas.

- ... aí o alguilês olhou pra mim com seus dois pares de olhos refletindo a minha cara barbada e suja. "De tempos em tempos", ele disse, com aquela voz esganiçada que vocês conhecem, mas sem a arrogância que vocês esperariam, "a realidade se dobra. Ninguém sabe ao certo porque ou a partir de que ponto, mas ela se dobra e se espalha por todo o universo como uma onda, como se o universo inteiro fosse uma poça d'água e caísse uma gota bem no meio. Agora, imagina uma Onda de realidade do tamanho do universo, o que ela é capaz de fazer com um ser". "Ah, tá", eu disse, "olha só, não quero duvidar dessa história toda e tal, mas se houvesse mesmo uma 'dobra na realidade', você não acha que todo mundo ia ser capaz de senti-la? Quer dizer, ninguém nunca tinha me falado disso até eu ficar preso aqui com você". Aí ele disse "Ninguém ou nenhum terráqueo? Porque meu caro, em Alguil e em centenas de outros mundos essa história é real e é disso que vivem muitos sacerdotes de muitas religiões. Aposto que na Terra tem isso também, mas como outro nome". Bom, aí eu fiquei pensando naquilo por um tempo, mas cheguei à conclusão que era viagem dele. Uns dias depois, a cavalaria chegou. Nosso exército entrou chutando a porta e liberou todo mundo. Eu estava correndo para a nave de resgate, só que, do nada, apaguei. Acordei horas depois, estava em uma câmara escondida junto com o alguilês. Quando fui perguntar para ele o que tinha acontecido, ele só respondeu, "Aguarde, terráqueo. Vou te levar para surfar a Onda".

- Era verdade então? - alguém no meio do pequeno grupo que ouvia ao imediato perguntou.

- Meu amigo, não só era verdade, como foi a maior experiência pela qual já passei em toda minha vida. Foi como comungar com o universo, foi como descobrir o significado de tudo e saber as respostas para todas as perguntas. E então, acabou.

Daquela conversa, metade das pessoas saíram revoltadas, já que estavam esperando uma história de guerra e de repente Wülff chegou com esse papo de religião. A outra metade ficou lá ouvindo por graça, achando divertido e interessante. Mas só uma realmente prestou atenção e entendeu o que Wülf dizia.

- Senhor... gostaria de saber mais sobre esta Onda... e sobre como eu posso fazer para surfá-la como o senhor.

- Pois bem, sargento. Me acompanhe, e eu te mostrarei tudo o que precisará saber. Qual é seu nome mesmo?

- Sargento Beckings, senhor. Sargento Charles Beckings.

***

Os punhos do tenente estavam cerrados com ódio, mas alguém que o observasse se sentiria mais ameaçado por seus olhos. Bem abertos, tornando a área branca bem maior do que normalmente seria, fazia com que a íris acinzentada típica da ilha de onde vinha se perdesse, evidenciando ainda as pequenas pupilas que pareciam capazes de fuzilar um homem. Tirou a pistola do coldre, sob o olhar atento do capitão a seus pés. Apontou-a para a cabeça. Os olhos miravam, o dedo tremia no gatilho.

E então jogou-a no chão.

- Não - disse Beckings - Vou te matar com as próprias mãos, safado.

Wülff sabia muito bem que Beckings era mesmo capaz de fazer isso. Não era só sua força, era seu vasto conhecimento sobre o assunto. O capitão já tinha visto seu tenente matar com os punhos antes. Várias vezes, todas sob seu comando, todas a serviço da sua nave, a Oportunidade.

Oportunidade. Era exatamente disso que o capitão precisava naquela hora. Contra todas as probabilidades, contra um inimigo mais forte e mais motivado. Um momento, uma oportunidade. Um toque no comunicador.

- Tenente Beckings! CCS chamando Tenente Charles Beckings, da nave Oportunidade, câmbio!

Por uma fração de segundo, os olhos de Beckings saíram de sobre Wülff e se voltaram para o comunicador em sua cintura. Tempo suficiente para Wülff mostrar porque ele era o capitão, e Beckings o subalterno.

Com um giro veloz no chão duro, Wülff pegou a pistola jogada no chão por seu pretenso executor, e antes que o adversário pudesse pensar em reagir, levou um tiro no joelho esquerdo, caindo no chão. Enquanto Wülff se levantava lentamente, sentindo dores por todo o corpo e mantendo a arma apontando para Beckings, este jazia agachado no solo rochoso. Seus olhos ainda mais raivosos derramavam lágrimas ácidas de ira e frustração, seus dentes cerrados não continham uma espumosa saliva de cão raivoso.

- Atenção, Tenente Charles Beckings, o Comando Colonial de Sírio requer resposta imediata! Responda, Tenente Beckings, câmbio!

- Três meses, Charles. A próxima Onda vem em fevereiro, e você a perdeu por três meses. Era tudo verdade. A experiência da sua vida. A oportunidade que você perdeu.

Antes que pudesse se arrepender, Beckings estava morto.

- Tenente Charles Beckings, este á seu último aviso, retorne a chamada ao CCS imediatamente, câmbio!

- Aqui é o Capitão Gael Wülff da nave Oportunidade, falando de Sírio 1. Infelizmente, o Tenente Beckings pereceu em combate com um grupo de piratas, o qual destruiu também nosso veículo. Enviando sinal de coordenadas para resgate. Câmbio final.

***

Naves. Muitas naves. Insígnias (e intenções) desconhecidas. Enquanto observava pelo visor da sala de planejamento da Oportunidade as naves alienígenas que se aproximavam do cinturão de asteróides da alfa do Centauro, o Capitão Wülff pensava em datas.

Uma semana atrás, conduzira um diplomata à uma negociação em Aduuhr.

Dali a alguns dias, virá uma nova Onda.

E três meses atrás, matara o Tenente Charles Beckings, o qual queria matá-lo com as próprias mãos. Mas o capitão usou a pistola mesmo.

4 comentários:

Tahkren disse...

é impressão ou tudo sem encaixa? perfecto

Bia Ferreira disse...

Poxa... fiquei impressionada!!! só uma sugestão, que vivem dizendo lá no meu blog, e agora eu repasso pra vc (vcs), contos grandes assustam as pessoas (ê povinho preguiçoso, e não só o pessoal aqui da Bahia não!), então, dividir a história em partes (que nem o fred) dá até um charminho, um gostinho de quero mais, sei lá... funcionou comigo, as eclamações pararam...
Sobre a narrativa: a atmosfera que tu criou é de relevancia a parte.. muito bem escrito..

Fabio Ciccone disse...

Ora, obrigado :)

Bom que tenha curtido

André Lasak disse...

Lindo, isso.

Abrá!